Um herói tem mil faces… mas só uma história.
Eventualmente, todos regressamos às bases.
Cada simples e única, cada complexa ou abstracta experiência tem de ter algumas credenciais. Ninguém vai para um laboratório sem saber o que vai fazer, sem um protocolo. Apesar deste argumento, não encontrarão pessoa que defenda tão firmamente o papel de criatividade e imaginação no processo de descoberta.
Só que para abrir uma porta, é preciso saber onde está o puxador.
Qualquer processo criativo começa com um desabrochar, com as suas equações ou integrais de séries. Cada autor tem as suas hipóteses, as suas teses… e cada autor procura evidências, suporte para elas. Quando não são usadas para justificar plágio, na literatura estas evidências têm um nome.
Influências.
Porque nada existe no vazio, nada é solto ou inconsistente. Não. Comportamento editorial, comportamento histórico, comportamento criativo… todo ele é comportamento humano. Ou seja, o comportamento de chimpanzés que gostam de contar histórias.
Reconciliar-me com elas é uma das coisas que mais gosto de fazer quando começo um trabalho novo.
Ora, uma das minhas grandes “evidências” é o trabalho de Joseph Campbell intitulado de The Hero With a Thousand Faces. Um livro comparativo, um estudo de padrões entre a natureza dos protagonistas, da história humana.
As conclusões são simples, cada herói tem um caminho, que Campbell divide em quatro fases. Uma sacra conjunção que começa com a Partida, com o abandonar dos ambientes conhecidos, recolhendo Ajudantes e Objectivos. Por fim atinge o Limiar da Aventura, atravessando-o nalgum confronto climático: seja ele dragão, mítica viagem ou crucificação.
Feito esse marco, entra na Iniciação: o herói começa a ter consciência das suas fraquezas e forças. Provas e provações seguem-se, monstros ou enigmas, rios de problemas que exigem dele a energia de um fértil salmão. Neste passo, o herói partilha muito dos Ajudantes e Inimigos, usando-os como escada para o outro limiar…
O Eixo do Mundo, o Axis Mundi de Campbell. O momento em que o herói tem plena consciência de si e do seu papel no universo da história. Esta compreensão surge de diversas formas. Imortal elixir, ascensão aos céus, humana transcendência, um sagrado casamento, consumação de sonhos… é o pináculo do herói, o ponto-chave que o diferencia dos Ajudantes e dos Inimigos, dos comuns e caídos mortais.
Ou seja, nesse círculo, acabou o Mistério. O herói não pode subir mais… Tendo chegado ao Trono do Mundo, agora há que descer. Então começa a rota da tragédia, que de trágico poder se oferece.
É a altura de Regressar, a separação e partida dos Ajudantes, talvez eles agora os seus próprios heróis. As transformações daquilo que viu acompanham o herói, mudando-o. A magia do seu ser alterou-se e começam a notar-se claras diferenças com a criatura relativamente inocente e ignorante que saiu de casa. Por fim, alguma manifestação surge deste novo herói. Ou um Ulisses retornado que com o filho extermina os pretendentes dos seus direitos, um Sebastião reconhecido, um Teseu coroado ou um Cristo ressuscitado, algo volta a cruzar o Limiar da Aventura, um último acto heróico para terminar a história.
Chega então o fechar do círculo, quando o herói se prepara para o declínio. Alguns têm mortes esquecidas, outros fecham-se em legados, construção de cidades e somando os sonhos dos mortais aos céus. Outros caem, tornando-se meras sombras dos seus antigos eus, corrompidos e esquecidos. Reino e Morte, isto espera ao herói no fim da história. A desova do salmão.
Reino e Morte e a esperança de sequela.
É fácil compreender o paralelismo. O heroísmo da questão fundido num só ponto concêntrico, que transforma cada e única história num monómito de Joyce. Mas que propósito podemos tirar daqui?
Muitos.
É preciso de ver a visão humana que Campbell dá de herói. Ele fecha o seu trabalho divagando sobre os papéis do herói, as forças e formas sobre qual a sua natureza se manifesta. As suas transformações. O herói como Guerreiro. Como Amante. Como Imperador e Tirano. Como Redentor do Mundo. Como Santo e como Encoberto.
O herói como expoente humano.
Para terminar esta conclusão, recordo de uma comparação que uma vez fiz, sobre o Caminho do Parvo, familiar para aqueles que conhecem o baralho de Tarot. As semelhanças entre ele e esta… redundante via do herói. E tal como uma pessoa me disse na altura, isso é pouco mais do que o desenvolvimento de um ser humano, o que as cartas contam não é diferente das palavras de Jung, Freud e Erickson. E ela tinha toda a razão do lado dela.

Tudo evidências, tudo parte de um padrão. A mensagem?
No fundo… estes chimpanzés contam histórias sobre o que mais ambicionam.
Sobre o que querem atingir.
E não é as copas das árvores.
A libertação, a compreensão de uma dimensão maior onde estão inseridos.
Crescimento.
Humano crescimento.

