Cruzadas Literárias II
“Qualquer ramo da literatura que dê bons frutos está condenado a produzir sementes que dão árvores pálidas e tristemente semelhantes à mãe.” Alguém ainda se lembra disto?
Pois, acontece que contra todas as leis da genética e da selecção natural, essas árvores continuam a deixar sementes. Sementes que florescem em degenerados híbridos de terceira ou quarta geração… quinta, sexta, sábado. Vocês percebem a imagem.
Lembram-se do meu comentário sobre os anti-estilos e o apelo a uma avaliação mais baseada em qualidade e não em estereótipos? Bem… Quer uns quer outros podem regozijar-se agora com mais um exemplo da “boa selecção”, o mais recente protegido da Gailivro, o talentoso João Reis Piedade.
O seu livro de estreia, O Filho de Odin é tudo o que nos ensinam na escola que é mau num livro. Pior, para além da nossa educação, o livro é tudo o que não bate certo aos instintivos olhos da vida.
Não vou falar em clichés. Os clichés são, apesar de tudo, coisas boas que acabam por funcionar: se não o fossem, não eram tão recorrentes. Não adicionam nada de novo ao património cultural humano, isso é um facto. Mas cumprem as suas funções.
Acho que só há uma coisa para caracterizar… ridículo. Tal como o herói desse épico é preciso ter coração forte, a única maneira de sobreviver à torrente de inconsistências que nos assaltam. Contudo, isso é aberto a discussão. Não tenho nada contra ficção “alternativa”, mas se formos ver, as maiores obras do género debruçam-se sobre si mesmas para criar consistência, algo arrebatador e envolvente. Indispensável no género.
E nisso tudo o nosso estreante João Reis Piedade falha. O seu trabalho é uma tapeçaria de retalhos, retirados com orgulho de bandas desenhas, outros livros do género e claro, a eterna presença de Hollywood. De facto, cada vez que penso mais um pouco, penso-o mais parecido com o Paollini, que como sabem, é publicado pela mesma altura, do que à primeira vista aparenta.
A Gailivro está a criar um novo Paollini, um Paollini português.
Basta ver a propaganda. A cada mês que passa, a idade do nosso jovem prodígio na altura da elaboração é reduzida num ano. O que começou por ser o trabalho feito aos 16 anos, passou aos 15, passou a 14… daqui a um ano e qualquer coisa temos a dizer que o manuscrito era o cordão umbilical do génio. Também o tempo de criação da obra vai sendo consideravelmente alterado, passando ora do trabalho de umas férias ora para o de um mês…
Em qualquer dos dois períodos, Dificilmente o tempo que demora a fazer um “épico inovador”. Mas estão começando a notar algo de familiar, não estão?
Juntem-lhe toda a publicidade com ele e o seu trabalho, todo o factor C em redor disso. Muito familiar… deveras. Prevejo um filme no futuro próximo, com pior casting que o do Morangos com Açúcar. E com publicidade a condizer.
Pois, e como é costume nos meus artigos, já me perdi. Sim, claro. O que pretendia eu com isto? Ah, sim. Eu queria voltar a apelar ao vosso sentido critico, quer convosco quer com os outros. Não façam como o João Piedade, que com um pouco de bom senso nunca teria deixado que os papás levassem o seu livrinho para as gráficas. Pensem se querem um tecto baixo ou uma escada para subir…
Para mim é fácil saber qual escolheria, já me custa ter de fazer o limbo nos corredores da universidade, nem imagino como seria com tectos mais baixos. Pergunto-me se daqui a cinco anos o nosso amigo João não pensará disto tudo como um erro…
