Amniótica Esperança
Têm havido algumas novidades no campo da regeneração celular…
E para variar, uma onda ainda maior de especulação têm acompanhado essas recentes inovações.
Ainda nem faz uma semana, investigadores norte-americanos “descobriram” células estaminais e outras células progenitoras com capacidades de regeneração no líquido amniótico, no líquido que cerca os embriões em desenvolvimento.
Digo “descobriram” porque tal acto está longe de ser um “breakthrough” na área. A existência de tais células não é inesperada, a sua existência já anteriormente provada pelas reacções bioquímicas do dito líquido, que evidenciavam a existência de actividade celular a nível da regeneração e replicação, para além da normal síntese. Contudo, foi a primeira vez que se conseguiu isolar as ditas célula, pelo menos a níveis suficientes para as estudar.
O uso de matrizes intracelulares não é uma ideia particularmente nova. No mesmo molde temos o sucesso que os tratamentos de colagénio, idealizado a partir dos mesmos moldes. Que também são aplicados nos tratamentos de Alzheimer e Parkinson, cada vez mais debruçados sobre células da glia, os “mecânicos” dos neurónios. Contudo os preços dos cremes e a ausência de medicação adequada para as referidas doenças são apenas duas faces duma realidade que mostra bem como a especificidade dessas células e a complexidade dos seus processos de maturação, assim como os custos de as emular.
Apesar de ser uma descoberta promissora, existem problemas com essa teoria. Dificilmente as células estaminais possuem a totalidade das capacidades das suas irmãs que se encontram placenta e no embrião, tendo já atravessado várias mutações devido a estarem sujeitas a um meio que, em geral, contêm maior número de radicais livres que o embrião. Além disso, o meio amniótico chega a preservar proteínas e outras biomoléculas que não existem em embriões maduros e seres humanos, preservados nele após a passagem do feto para os estados mais avançados da gestação. Algumas dessas biomoléculas podem causar respostas adversas e até doenças auto-imunes em pacientes sujeitos a um tratamento que surja baseado no líquido amniótico. Por fim, o custo da extracção do líquido pode ser mínimo, mas o processo de separação é caríssimo. Cá em Portugal temos das melhores empresas de recolha e preservação de células estaminais de placentas, usando métodos baratos – relativamente, tendo em conta a área de trabalho, – a custos que dificilmente podem ser mantidos neste novo método.
Mas a ciência é assim, com passinhos de bebé. Duvido que daqui venha o Santo Graal dos biomateriais como a imprensa tem prometido, mas é uma zona com muito potencial. E ao menos não trilha por caminhos sociais tão problemáticos.
É esperar para ver.
