Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Grandes Portugueses

Devo confessar que quando ouvi que a RTP ia realizar cá as mesmas votações que já tinham sido feitas mundo fora. Em muito com receio do que iria chegar à lista dos 10 mais. Mas vendo a lista, voltei a ganhar confiança no bom senso do nosso povo. Sinceramente vai ser uma coisa gira de votar e ver. Ainda mais interessante foi saber que cada figura nomeada para o Top 10 vai possuir um defensor público e um documentário para defender o seu estatuto de “grande.”

Isso promete, tendo em vista os nomes presentes.

Assim, um pouco de adiantamento, aqui no Ars fazemos uma pequena avaliação dos candidatos.

D. Afonso Henriques: Da maneira como a pergunta do programa está colocada, um sentido literal leva logo à escolha do nosso fundador. Afinal, quem mais fez mais por Portugal. O ponto é simples: sem ele não havia Portugal. Um favorito natural, foi um grande homem, duro e lutador, temido e respeitado até pelos inimigos. Um homem que conseguiu defender a sua rebeldia contra os outros poderes europeus, conquistar as graças da Igreja e das ordens e forjar um poderoso legado.

Álvaro Cunhal: Algum poder presente no 25 de Abril acabaria de ocupar um lugar nos 10 mais e ideologias políticas aparte, este objectivo acabou por ser cumprido por alguém merecedor. Entre os inúmeros dinossauros de 70 que foram candidatos, foi escolhido alguém que participou activamente na revolução e essencial para o desenrolar e amadurecer da democracia. Além disso, foi uma das figuras mais importantes da esquerda nacional, escritor de valor e inspirador de homens.

António Oliveira Salazar: É dito inúmeras vezes que um chefe de estado só pode ser julgado pelo seu próprio povo e o julgamento do povo Português é simples: eles não o querem esquecer. Para bem e para mal, é uma figura tremendamente importante da história nacional. Leal à sua ideologia, um génio financeiro e capaz professor, ajudou o país a acompanhar uma Europa nova e a manter uma face no mundo. Os seus erros são facilmente apontados, mas a verdade é que a sua herança perdura.

Aristides de Sousa Mendes: Um homem lendário, conhecido principalmente e glorificado pelas suas acções enquanto cônsul. As suas acções audazes que colocaram em risco não só o seu futuro como a neutralidade do pais, permitiram alguns milhares de se juntarem aos números fantasmas do Holocausto. Acabando por morrer na pobreza, o esquecimento parece não querer ter nada a ver com ele. Merecedor de estar neste grupo de grandes.

Fernando Pessoa: Se há um escritor que merecia o lugar é O escritor. Juntamente com Camões, este génio inovador e engrandecido por musas loucas encontrou a alma da nação, cantou-a e estimulou-a, glorificando-a dentro e fora das nossas fronteiras. Nenhum outro artista português lhe poderia roubar o lugar.

Infante D. Henrique: Um dos primeiros impulsionador da expansão marítima e tido como uma das principais fases dos Descobrimentos, o Infante decerto merece este posto. No entanto, todo o processo de preparação e execução dos Descobrimentos necessitou de muitos mais motores. Muitos mais homens poderiam reclamar as suas glórias…

D. João II: … Começando por este aqui. Um dos meus favoritos para o lugar de grande entre grandes, o Príncipe Perfeito foi um homem de visão e determinado em cumprir a sua visão. A sua inteligência e presença era de renome, contrariando a sua fraqueza física. Implacável e austero, não hesitava em atacar os próprios nobres para consolidar o seu poder. Contudo, essa austera justiça e o seu ideal de monarca forte tornaram-no lendário aos olhos do mundo e aos nossos olhos.

Camões: Um homem importante para o reconhecimento do espírito Português e pelo ressuscitar do estilo épico. Um verdadeiro português e um verdadeiro amante da sua arte – entre outras coisas mais palpáveis, – representa na perfeição a incarnação da época. Sem dúvida conquistou em vida este lugar, mas o seu defensor vai ter grande trabalho a ajudá-lo a reclamar o título de grande dos grandes.

Marquês de Pombal: Um homem inteligente e empreendedor, mas cujas qualidades são grandemente exageradas. Engrandecido pela fraqueza do rei que servia, de facto lutou em inúmeras frentes, mas nem sempre com o melhor para o país em conta. Mesmo assim, não destoa dos restantes grandes.

Vasco da Gama: Um dos melhores navegadores dos nossos Descobrimentos e sem dúvida o mais recordado. Montou um dos pilares da nossa era dourada com a sua rota, mas tal como já foi dito aqui antes, os Descobrimentos foi uma grande época feita por muitos grandes e pequenos homens. Dificilmente uma só face pode acartar com os louros.

Bem, nos 100 mais votados estavam alguns nomes… interessantes. Felizmente, não estão no Top 10 nomes como Mourinho, Vítor Baia, Luís Figo, Eusébio, Araújo Pereira, José Sócrates, Cristiano Ronaldo ou aquele rapazinho dos Morangos com Açúcar. Enfim, gostei de ver o que surgiu no fim.

Agora é ver hoje à noite como vai decorrer a fase final. Promete o suficiente para se revelar interessante.

16 Janeiro, 2007 - Publicado por | Ars Scientia, Artes, Ciência, Comportamentos, Literatura, Notícias, Prémios, Sociedade, Tendências

7 Comentários »

  1. Sou obrigado a discordar sobre o que dizes do Cunhal. O homem defendeu activamente a transformação do país numa ditadura comunista, e esteve envolvido até aos dentes em todo o processo que ia retirar o poder aos Portugueses, que por acções audazes do General Ramalho Eanes a 25 de Novembro, foram impedidos.

    Na revolução de 25 de Abril também nada fez, foi um golpe exclusivamente militar, e Cunhal na altura estava exilado, e pedia quase semanalmente em jornais Checos comunistas para que a URSS ajudasse a invadir Portugal. Mas quem faz o golpe é o MFA, não o PCP.

    Podem louvar-lhe muitas coisas como a dedicação à sua causa, a comunista, e o que sacrificou por ela. Mas não lhe dêem o que não é dele.

    Comentário por Bruno | 16 Janeiro, 2007 | Responder

  2. Aparentemente nem toda a gente é da tua opinião, ou ele não estava entre esta lista. Além disso, apesar da origem do golpe, faz muito mais sentido o Cunhal estar nesta lista do que o Mario Soares.

    Cada um teve as suas ideias e cada um teve os seus pontos. Ideologias aparte, como já referi, há que dá valor ao homem. E por aquilo que tentou implementar. Bem ou mal não me sinto em capacidade de julgar. Sim, apesar das suas ideologias ditaturiais, ajudou sim a moldar a democracia portuguesa. Nem que fosse por oposição. E isso não retiro ao homem.

    Mesmo não sendo o dinossauro de Abril que queria ver nos últimos 10, está acima da média dos típicos candidatos. E no assunto do 25 de Abril há muita glória mal distribuida… nem vale a pena entrar por aí.

    Além disso… ideologias politicas aparte. Fora isso, opiniões são como cerejas. Just keep them coming. :D

    Comentário por Ludovico M. Alves | 16 Janeiro, 2007 | Responder

  3. Acho chocante é nem o Spinola nem o Eanes estarem na lista.

    O Salgueiro Maia e o Otelo estão bem lá, e até concordo que o Cunhal estevisse nos 100 primeiros, visto o que fez. Mas nunca nos 10 primeiros, onde é de longe o elo mais fraco.

    Comentário por Bruno | 16 Janeiro, 2007 | Responder

  4. Enfim, por mim também remodelava isso… mas garanto-te que o Cunhal não seria o primeiro que tirava da lista.

    Comentário por Ludovico M. Alves | 16 Janeiro, 2007 | Responder

  5. Tópico quente da hora, venho aquecer de achas a fogueira. Começo por confessar que ainda não li a lista dos cem nomes completa, mas posso acrescentar àqueles que não mereciam estar nela o nome escandaloso de Maria do Carmo Seabra (a ministra de educação do Santana Lopes) ou o nosso carolíngeo amigo Pinto da Costa. Em contrapartida, há ausências pesadas: só percorrendo a memória recente, recordo que o Amadeo (sim, o mesmo Amadeo que arrastou multidões à Gulbenkian) não está na lista. Porém, centrando-me nos dez primeiros:

    D. Afonso Henriques – Nada a acrescentar ao que disseste: a própria pergunta, como apontaste, viciava esta resposta.

    Álvaro Cunhal – Discordo. E não é por ideologias políticas (apesar de também discordar aí). E, claro, excluo, em substituição dele, um nome como Mário Soares ou Manuel Alegre. Até um certo ponto, estou em grande sintonia com o Bruno, em pensar que a revolução foi do MFA. Na minha opinião, se havia uma figura de Abril a estar nos 10 maiores (e, mesmo isso, é, para mim, contestável: o 25 de Abril é uma bendita revolução na nossa história [apesar de também terem razão aqueles que dizem que, em boa parte, o atraso do país vem daí: mas só vem daí porque a revolução não foi mais cedo, não por ser e haver revolução], mas dizer que os seus instigadores são os “grandes” da nação, só se falarmos de um passado recente); dizia, se é para ter um homem de Abril nos 10 maiores, então, que fosse Salgueiro Maia.

    Salazar: Discordo. Isto é revelador de um saudosismo inquietante, porque todos nós (pelo menos eu) ouvimos cada vez mais as pessoas a clamarem por um Salazar: e parte do sucesso de Sócrates, por exemplo, advém de transmitir eficazmente uma imagem de autoridade e firmeza. Não estamos a discutir qual o português que teve mais impacto na nossa vida (o que estaria o justo do Aristides de Sousa Mendes a fazer na lista então?), mas sim aquele que é o “grande”, aquele de que nos orgulhamos, no qual vemos uma encarnação do melhor do Portugal e dos portugueses: e se o melhor de Portugal e dos portugueses é Salazar, então, amigos, somos pobres – e somos podres.

    Aristides de Sousa Mendes: um dos três desta lista pelo qual o meu voto se divide – louvo-o pela sua imensa coragem e humanismo. Um verdadeiro amigo dos que sofrem: um pequeno santo português, que dá vontade de imitar no regresso dos tempos adversos.

    Pessoa: sem comentários, porque sempre redundantes. O segundo pelo qual o meu voto se divide (e que eu secretamente, mas só muito secretamente: tão secretamente que tenho de o revelar!, desejo que ganhe – vaidade de poeta?).

    Infante D. Henrique: Citando Almada,
    “Este último foi um grande matemático.
    Mediu o Mar com a sua matemática
    Num tempo em que faltava ainda inventar matemática.

    Desenhou dia e noite sobre o mapa do mundo
    Para decifrar o Mar.
    Fizeram-se barcos e barcos
    Para repetir sobre o Mar
    Os desenhos a lápis
    Que ele tinha feito sobre o mapa do mundo.”

    D. João II: a terceira e última personalidade pela qual se divide o meu voto. Sempre o admirei desde pequeno, talvez por ser meu homónimo. Via nele, verdadeiramente, o rei dos Descobrimentos, aquele que poucas glórias viveu em vida (e mesmo assim, que alegria!, a Boa Esperança!), mas que, na realidade, fez o embrião do Império Português.

    Camões: concordo plenamente com a denúncia que fazes da dificuldade que o defensor terá em justificar porque deve ser Camões o número 1. Mas que deve estar nos 10 primeiro, arriscaria mesmo, entre os 5 melhores: isso, é indubitável.

    Marquês de Pombal: Não sei se as qualidades de Pombal são tão exageradas quanto isso. Porém, reconheço que merece este posto: a sua prontidão no socorro às vítimas do Terramoto e a sua visão na reconstrução da Baixa são verdadeiramente dignas de espanto. (Mas sim, nem sempre fez o melhor para o país: pobres vinhateiros do Porto!, pobres Jesuítas!, pobres outros tantos sem nome!). Poderia fazer-lhe a mesma crítica que faço ao Salazar: não se trata no concurso de escolher a personalidade que mais influenciou a nossa história, mas sim aquela que colhe a maior ovação e admiração. E, nesse sentido, o Marquês não recolhe o meu voto.

    Vasco da Gama: espanto dos espantos, discordo! Mas aqui, reconheço, só sou eu que, autista, faço birra e resmungo como uma criança que quer mais papa. Em vez de Gama, proponho Fernão Magalhães: nome de galáxia, inclusive. A circumnavegação é um feito superlativo. Morrer numa das maiores epopeias do homem só o torna ainda mais herói. Ele, sim, tivesse sido votado entre os 10 mais, seria a quarta personalidade a roubar-me, e muito fortemente (quase tanto como só o Pessoa!), a minha simpatia e o meu voto.

    Peço desculpa por me ter alongado – e, muitas vezes, não ter sido particularmente coerente, enquanto desfilava, como um terço, as ideias, como avé-marias. Porém, foi um bom tema, Daemonfey, para levantar aqui: e acho que ainda vamos correr muita tinta sobre ele.

    Comentário por silent_dark | 18 Janeiro, 2007 | Responder

  6. Isso é o que se chama um comentário melhor que o post original. XD

    Comentário por Ludovico M. Alves | 18 Janeiro, 2007 | Responder

  7. Alvaro cunhal,não contribuiu em nada para a DEMOCRACIA,pois se tivesse exito na sua empreitada,teriamos hoje uma CUBA em
    Portugal,tinhamos saido de uma ditadura para implantar outra
    Felizmente que isso não aconteceu.
    Quanto a incluir jogadores na relação de portugueses importantes, não penso assim:jogadores que são muito bem pagos e que pouco ou nada deixam para a posteridade,a não ser colocar Portugal em terceiro lugar nas Copas Mundiais.
    Será que existiu um emigrante que tenha elevado o nome de
    Portugal e contribuido para o equilibrio das finanças portuguesas?Concordo com Sr Ludovico M. Alves.
    Comentario por G.Moreira de Sousa /22 Janeiro,2007

    Comentário por alvaro cunhal | 22 Janeiro, 2007 | Responder


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