Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Chevrolet?

“test drive Chevrolet serra Sintra”
“novo motor Chevrolet”
“Chevrolet”
“preços Chevrolet”

Estes são apenas alguns dos resultados dos motores de busca que têm levado a este blogue. Chevrolet? É o suficiente para ficar no mínimo intrigado… Ao menos depois deste artigo os resultados passam a ser justificados.

Ou será que eles andam atrás de mim e descobriram que o meu carro é um Chevrolet? Hum? HUM!?

17 Janeiro, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Humor | | Sem comentários ainda

Não tocar na Terra… Não ver o Sol – I

“Porque tinha o sacerdote de Aricia de matar o seu predecessor? E porque é que ao fazê-lo, teve de arrancar o Ramo Dourado? Das duas questões, a primeira é deixada por responder. O sacerdote de Aricia, se eu estou certo, era um desses reis sagrados ou divindades humanas das quais a sua vida, o bem-estar da comunidade e até o destino da natureza estão intimamente interligados.”

 Sir James George Frazer, in The Golden Bough

 

  

Assim começa um dos melhores capítulos da sua lendária obra, rematando para a grande questão que originou toda a discussão. No episódio da Eneida que serviu de despertar para o livro o sacerdote de Nemi é ritualmente assassino pelo seu sucessor.
Sir Frazer apresenta aí, quase no final do livro a explicação para tal acto, gozando de todo o clímax que foi montando ao longo da obra. Ao longo da citação inúmeras sociedades e culturas fizeram a tríplice associação apresentada na citação. Para essas civilizações, o pior mal que conseguiam conceber era a morte do seu líder por doença ou o desgaste da velhice, pois para os seus seguidores tal acontecimento seria o auspício de terríveis desgraças para todos aqueles que eram suportados pelos seus domínios. Terríveis epidemias reclamariam a vida de homens e animais, a terra deixaria de provir sustento, a própria… erm… natureza da natureza acabaria por ser destruída. O casamento entre rei e a terra já não se podia consumar, a eterna circulação de vitalidade fora substituída por fraqueza e morte.
Para isso o rei tinha de morrer.
Morrer ainda na posse da sua divina masculinidade, um acordo com a terra sua esposa e com a segurança dos homens e da natureza. Uma garantia que a eternidade iria ser de fertilidade e de juventude. Tal como existiria reincarnação do homem, existiria reincarnação da energia animadora.
E o que é um rei, senão uma divina humanidade, um elo de ascensão? Ele está entre Céu e Terra, e os tronos e palácios em que os colocamos lembram uma verdade essencial para toda esta mitologia.

Que o rei não deve tocar na Terra. O rei não deve ver o Sol.

A divindade humana sempre foi vista como uma propriedade física, uma propriedade “fluida”. Tal como a electricidade passa para um bom condutor, a divindade, essa “verdadeira realeza” passaria para o sucessor com igual intensidade. A Terra e o Sol, pontos de partida e definições dessa divindade, pontos de limitação e consumação, verdadeira ambrósia e sangue dos Deuses, não podiam tocá-lo.
Pois iriam roubá-la. Chamar para si o potencial.
Apagar esse refinamento do fogo de Prometeu.
Apagar a electricidade de Frazer.
A nossa electricidade.

Sim, porque nós somos uma sociedade eléctrica. Electricidade corre nos nossos Céus e na nossa Terra, mas desta vez é isolada por Ramos Dourados feitos de cobre e material isolante. Electricidade desce o comprimento de sinapses, libertando-a ambrósia sobre a forma de neutrotransmissores. Nós crescemos e recuperamos na base dessa nossa divindade interna, dessa divindade eléctrica.
A electricidade é o fogo do homem moderno.
Somos todos Reis do Bosque de Nemi. Somos todos um passo acima na ascensão. Somos mais fluidos do que os nossos limitados antepassados, mas de tal podemos conceber coisas mais terríveis para as consequências do nosso enfraquecimento. Extinção em massa. Colapso nuclear. Cicatrização da própria realidade.
E escolhemos não tocar na Terra… não olhar para o Sol.

Após apresentar esta ideia, espero desenvolvê-la no próximo artigo. Espero que vos tenha cativo e que deixem já algumas das vossas opiniões. Elas são bem mais importantes e úteis do que à primeira vista podem imaginar. O Ars não é nada sem vocês.

17 Janeiro, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Artes, Comportamentos, Frazer, Humanidades, Literatura, Sociedade, Tendências | | 1 Comentário