Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

“Não existe boa ou má ciência”

Isto disse um famoso cientista, uma famosa abanadela às exigências económicas e políticas da sociedade moderna…

Ah, Aaron Ciechanover… Prémio Nobrel da Química em 2004 e bem merecido. A descoberta que levou à atribuição do prémio foi o mecanismo de degradação de proteínas através da ubiquinina. Não entrando em detalhes e não assustando logo as pessoas no início do artigo, traduzo a ideia. Em imunologia, era difícil compreender exactamente como eram apresentadas as protéinas soltadas por um corpo estranho. Através do mecanismo da ubiquinina, é possível explicar todo esse processo. Maior compreensão desse processo é um pilar da imunologia moderna, pois serve de arma para o estudo de novos medicamentos capazes de despoletar uma resposta.

Pronto, era essa a ideia. Mas este homem, este grande cientista israelita, teve recentemente entre nós. Mais exactamente, no Porto, a convite da Calouste Gulbenkian. As suas palavras denotam um sentimento de angústia com a hesitação das correntes políticas em incentivar a ciência. Nomeadamente, a forma como os governos e companhias procuram apenas ciência aplicada, investigação com fins imediata e directamente práticos. Ou melhor, na linguagem moderna, investigação = lucros. Mas uma casa não se pode construir com tijolos em cima de palha. E como tal, refere muito bem Ciechanover, não se pode saltar-se para prático algo que não foi investigado. E uma investigação numa fase inicial nunca pode lançar boas luzes sobre aplicações práticas.

Se tal acontece, é uma investigação que falha à partida.

Ciência é uma casa. Tal como a cultura, tal como a literatura, não há lugar para carros à frente dos bois ou outras metáforas análogas. Assim como isso, não há lugar para cultura e literatura “mercenária” ou “clonada”, não há lugar para ciência “mercenária”. Ou pelo menos não deveria haver. Há, há. Mas muitas vezes acaba por empatar os avanços do que os favorecer.

26 Janeiro, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Ciência, Notícias, Sociedade, Tendências | | 6 Comentários