Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Eu gosto da minha cultura como os meus genes, ou seja…

… fatiada. Qualquer frequentador habitual do Ars já me deve ter ouvido – ou mais correctamente, lido – a falar de engenharia genética. e de transportadores retrovirais. Mas para não obrigar-vos a mergulhar em um ano de velha história para resgatar tão simples informação, aqui apresento a ideia onde me suporto. Um transportador retroviral é um vírus “treinado”, o seu código genético recombinado para um novo objectivo. Que é introduzido e copiada, realizando a tal engenharia.
Isto é engenharia genética.
E a engenharia cultural? Ninguém nega que é feita de palavras. Mesmo subentendidas em imagens, as palavras continuam a ser como pixéis num monitor. Isoladas, não têm sentido. Mas estão lá.
E se as palavras forem vírus? Que nos contaminam com algo, que nos faz florescer em ideias. Mas falta algo… tal como o vírus contêm o código genético com genes modificados, as palavras têm de ser algo mais do que palavras. Têm que ser transportadores de memes.
Memes, o equivalente dos genes para um meio cultural, a parcela originária e indivisível – poderia até chamar-lhe atómica – de uma ideia. Sabem aquele jingle que não vos sai da cabeça? Aquele je-ne-sais-quo que vos inspira algo? Pois, isso é um meme. Numa cultura como a nossa, somos bombardeados por milhares de memes. Eles são o facto que separa a aprendizagem e o desenvolvimento da mera imitação. Macaco vê, macaco faz. Meme é estranho, mas meme causa um complexo mental próprio. Meme faz o macaco ver, faz o macaco fazer. Mas também faz macaco não fazer.
Faz macaco ter opinião sobre o que é feito.
Tal como cuidados no nosso código genético, talvez devamos começar a cuidar no nosso código cultural. Tal como a evolução favorece alguns genes, as nossas sociedades são sujeitas a tremores e meteoros que favorecem uns memes. Basta ver tudo o que passamos a rejeitar em duzentos anos.
Tudo não é assim tão diferente. O nosso interior, o nosso exterior, a nossa mente, o nosso corpo, tudo isto se move com uma sinergia vicariante única, afectando-se mutuamente numa selecção de objectivos desconhecidos. Nós podemos construirmo-nos diariamente, não sendo por genes, sendo por memes. E cada bocadinho, cada mudança podemos ter a esperança que é numa direcção.
E podemos continuar a desejar que seja a certa.

27 Janeiro, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Ciência, Comportamentos, Humanidades, Sociedade, Tendências | | 2 Comentários