Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Austrália… ou deverei dizer, Terra Java?

Pois, parece que isto de resolver as coisas há altura da hora só é uma coisa portuguesa muito recentemente. Já não há dúvidas, nós descobrimos a Austrália aproximadamente 250 anos antes da viagem de James Cook.

Ao que parece, Cristóvão de Mendonça liderou aquela que supostamente seria uma reacção da nossa Coroa à viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães. A sua missão era de levar quatro caravelas e atravessar o estreito de Magalhães, dirigindo-se ao longo do Pacífico para exploração do território entre a Ásia e as Américas. Como é que um calhau daquele tamanho como a Austrália passou despercebido, muita gente perguntará. Porque razão a descoberta nunca foi divulgada ou a Coroa Portuguesa reclamou os direitos sobre o local?

A verdade é que só a viagem já era uma infracção do Tratado de Tordesilhas e apenas Espanha teria direito à exploração e colonização da Terra Java. Preferindo entregar a descoberta ao oblívio ao invés de às mãos de Espanha, assim se perdeu a causa para os Ingleses. Até recentemente. Estudos com o “Vallard Atlas” mostravam um misterioso mapa que definia com pormenor a baía de Sidney, assim como outros marcos geográficos. E com indicações em português. Assim, como na altura os Brasileiros nem se tinham descoberto a si mesmos, não há dúvidas sobre os autores. Os portugueses tiveram na Austrália antes de 1545, mais exactamente, segundo outros dados, em 1522.

O culpado

Não seria mais simples terem graffitado “Portugueses tiveram aqui?”. Qualquer dia até na ilha do Lost encontram prova de que os portugueses tiveram lá antes que os outros todos.

31 Março, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Ciência, Humanidades, Notícias, Sociedade | | 3 Comentários

Publicidade da repetição

O que faz um investigador quando a sua área de investigação se torna uma pária?

Faz dinheiro e revoluciona o mundo do marketing.

Cada vez nos enterramos mais numa sociedade de “ácidos nucléicos”. Geneticista começa a ser uma designação que não só ultrapassa a barreira das profissões, começa a entranhar-se na ideia de construção social. Passou a própria barreira do termo. Apesar de ao começar este artigo, rever a clara situação da difamação dos estudos de eugenia e genética após a Segunda Guerra Mundial e a consequente migração de cientistas da área para outros sectores, os memes são um exemplo mais recente. Os velhotes reformularam a nossa maneira de ver a publicidade, trazendo uma visão metódica e científica, com factores de atracção e toda uma construção de selectividade e herança.

Arquitectos utilizam memes e genes na elaboração de edifícios. Onde há alicerces, também a suporte de ideias e de espaços humanos. Antropologia moderna emprega tantos geneticistas como investigadores mais “clássicos”. Cada vez mais, o centro com mais candidatos deixa de ser o centro de desemprego…

E isto tudo porque eu estava aborrecido e precisava de reafirmar que está tudo interligado.

22 Março, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Comportamentos, Humanidades | | Sem comentários ainda

Coisas que eu não precisava de saber… e vocês também não #1

Ignorância é mesmo uma benção. Depois de Microbiologia, há tanta coisa que não vou voltar a olhar da mesma maneira… Que nunca tive a ideia que eram tão concorridas. Como vaginas, por exemplo. Maldita candida.

9 Março, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Humor | | 4 Comentários

Escapismos

É o homem que resignado com o mundo, entrega-se ao trabalho, esquecendo os seus sonhos pelo custo de uma vida. É o mesmo homem que não se nega mergulhar numa série ou num livro que reflecte a ilusão romântica da sua carreira e percurso ideal. É o mesmo homem embalado na canção da sublimação, transmitindo nos filhos o desejo de seguir aquilo que não conseguiu, aceitando que é feliz assim.

É a rapariga indecisa, magoada num cedo desabrochar para a realidade das expectativas e desilusões, que na sua imaginação cai numa fuga para uma ilha deserta. Uma deserta ilha, mas cheia de pessoas com que se pode identificar, companheiros de naufrágio, amigos antagonistas, pessoas duvidosas com que ela se inclui, mas pessoas duvidosas que estão na transformação para algo melhor. Algo que lhe dá esperança. Que lhe dá forças. É a mesma rapariga, procurando na sua indecisa realidade pessoas que gostaria que a acompanhassem na viagem a essa ilha…

È a mulher desiludida com o aborrecimento e a falta de inovação e vitalidade da sua vida. Sedenta da chama que rotina e ausência de novos prazeres, sentiu-se obrigada a refugiar-se em romances de arlequim e fantasias de abuso e de forçada satisfação. É a mesma mulher, gastando num pequeno doce ou pessoal oferta a fortuna que pode ser mais útil animando-lhe um dia que tem sido mau, pior do que a sua doméstica miséria. É o mesmo futuro, passado na construção e pequena decomposição do ambiente que a rodeia, no pulso firme da maternidade ou emprego, uma razão de feliz compensação por todos os lapsos e falhas.

E eles são bem-vindos, e eles estão entre nós e o seu… escapismo é o nosso escapismo. Isto tudo por causa da maravilha do escapismo do vencedor do Fantasporto deste ano, El Labirinto Del Fauno… é impossível não ser apanhado na dimensão da fuga conhecida, rival ao nível de estradas de tijolo amarelo e da boa tradição daquele matemático que preferia a companhia de crianças a adultos e nas suas fugas deu à Alice maravilhas. O escapismo vive e é celebrado todos os dias.

Toda a gente fantasia. A nossa cabeça não tem de aceitar, bem longe disso está para fazer. Se recusa aceitar, ainda mais recusa em de tudo gostar. Apesar dos nossos caprichos individuais, eles cada vez importam menos. A nossa sociedade cada vez pede mais e cada vez menos dá. Euro, libra, dólar e iene podem ter altos e baixos, mas se há moeda sempre a desvalorizar, é a com que se compra a nossa felicidade pessoal, intrínseca.

Vamos admitir… parece que a felicidade se tornou obsoleta. É um sentimento comum, face a ele, quem pode resistir a quem não querer fugir? Seja a ocasional fantasia ou mais louco devaneio que nos ocorre no dia-a-dia, umas férias ou um mais arrojado “comportamento alternativo”? Bem, escapismo seja saudável. Desde que ninguém tenha uma regressão infantil, outros problemas psicológicos mais graves, ou se acabe por destruir. É uma ferramenta da nossa psique, do nosso eu e da nossa personalidade.
Nós vivemos cada dia com a esperança de a cada dia fugir. Com mais ou menos sucesso, vamos andando nessa fuga e perdendo ou ganhando algo. O mundo moderno nem sequer tenta lutar, embrenha-se no escapismo e convida todos nós a usá-lo. Ele está lá, ele chama-nos. Mergulhem nas piscinas dele, dizem eles. Seja num livro, num filme ou série, num sonho ou na letra daquela música. Vocês sabem. Daquela.

O escapismo vive.

O escapismo somos.

6 Março, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Comportamentos, Sociedade, Tendências | | 1 Comentário

Ó espartana paixão! Ó ateniense liberdade!

Nada explica genética clássica como atirar bebés de precipícios. Bem, funcionava com trigo e gado, porque não fazer o mesmo às pessoas? Escolher os melhores e forçar um pouco a selecção. Ideia tão boa! Porque não fazer o mesmo com a nossa prole.

Porque não?

Porque é uma posição difícil. Nem preciso de contar as razões contra… Mesmo assim, eugenia sempre existiu de alguma forma. A clássica cidade-estado é um exemplo, apenas um dos muitos casos que a história nos agraciou com. Mas e eugenia de ideias?

O cultivar de bons memes? A selecção de boas sementes.

Nem preciso de comentar o quão exacerbado é equiparar o descartar de uma ideia com infanticídio… Mas se pensarmos numa ideia como um ser próprio e consciente, com o estatuto humano, talvez seja mais fácil compreender, filtrar e finalmente conseguir lidar com ela.

E mais precisamente, com a nossa cabeça.

Comecei mal com bebés, vou desenvolver de uma maneira ainda pior, focando-me a um precedente do nascimento. Uma ideia tem um estágio anterior onde não é nem má, nem boa ideia. O infante também tem um análogo vagamente parecido, nada mais nada menos do que a concepção do mesmo.

Sim, estou a dizer que ter uma ideia começa como ter sexo. Calma, antes que comecem a julgar o ridículo da comparação, deixem-me prosseguir. Nenhuma ideia é má à partida, está cheia de potencial para crescer e evoluir. O sexo também. Nenhuma ideia sobrevive intacta ao contacto com a realidade e o mundo. No outro lado da comparação, há todo um jogo de expectativas quebradas e confronto de ideias com parceiro. Uma ideia viável ou não tende sempre a florescer do trabalho em conjunto e, da discussão e comparação; assim como está condenada a morrer infértil se ficar fechada sobre si mesmo. Assim como no sexo, se um se concentra somente no seu prazer, dificilmente se pode chamar ao acto mais do que masturbação assistida.

Podia continuar nos aspectos mais directos da comparação, mas penso que já transmiti a imagem. Contudo, tal como existem várias motivações para o sexo, também as ideias têm as suas forças de sustentação.

As melhores ideias, tal como o melhor sexo, apoia-se em amor. Elas são acariciadas, dadas especial atenção e até conseguimos fechar os olhos e ignorar algumas lacunas que não perdoaríamos noutra par… ideia. Infelizmente, tal como não se controla a espontaneidade do amor, também não se controla a das ideias. Há quem pratique e pratique, tentando conseguir tirar e dar maior prazer delas. Mas há momentos em que mesmo assim nada surge e há pressão, há que sair algo. Há quem o trabalho seja deitar-se com ideias. Há quem paga por ideias. As ideias têm pura e simplesmente que aparecer. A analogia sexual ainda mais horrível é: há que pura e simplesmente violar a musa.

Depois da fase mais leve e instantânea da ideia, ela tem que amadurecer. Algumas são espontâneas até no crescimento, outras são trabalhosas e ainda há aquelas que nem nove meses chegam para as gerar. Eventualmente a dita ideia atinge a massa crítica do nascimento.

Ficamos assim com os frutos da nossa paixão e do nosso trabalho nas mãos. E há que ver se é rosadinho e saudável ou de um enfermo cinza, decidir se continuamos a criar a ideia ou se deitamos esse bebé ao precipício. O que se decide. O que vocês decidem?

Infelizmente ou felizmente eu não consigo fazê-lo. Sei que há que ser selectivo, sei que é preciso abater as ideias mais fracas, mas nunca consigo atirá-las do metafórico precipício. São umas crianças difíceis que me custa sustentar, mas são as minhas crianças. Espero que um dia algumas delas sejam o meu legado e que sejam um bom legado.

E como são vocês? Como lidam com as vossas ideias? Nutrem-lhes carinho? Como é a relação entre vocês e a prole? Nunca se sentiram tentados a abortar, receando o trabalho acarretado por uma ideia? Como gostariam vocês que fosse a vossa ideia ideal?

1 Março, 2007 Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Artes, Comportamentos, Humanidades, Sociedade, Tendências | | 3 Comentários