Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Ó espartana paixão! Ó ateniense liberdade!

Nada explica genética clássica como atirar bebés de precipícios. Bem, funcionava com trigo e gado, porque não fazer o mesmo às pessoas? Escolher os melhores e forçar um pouco a selecção. Ideia tão boa! Porque não fazer o mesmo com a nossa prole.

Porque não?

Porque é uma posição difícil. Nem preciso de contar as razões contra… Mesmo assim, eugenia sempre existiu de alguma forma. A clássica cidade-estado é um exemplo, apenas um dos muitos casos que a história nos agraciou com. Mas e eugenia de ideias?

O cultivar de bons memes? A selecção de boas sementes.

Nem preciso de comentar o quão exacerbado é equiparar o descartar de uma ideia com infanticídio… Mas se pensarmos numa ideia como um ser próprio e consciente, com o estatuto humano, talvez seja mais fácil compreender, filtrar e finalmente conseguir lidar com ela.

E mais precisamente, com a nossa cabeça.

Comecei mal com bebés, vou desenvolver de uma maneira ainda pior, focando-me a um precedente do nascimento. Uma ideia tem um estágio anterior onde não é nem má, nem boa ideia. O infante também tem um análogo vagamente parecido, nada mais nada menos do que a concepção do mesmo.

Sim, estou a dizer que ter uma ideia começa como ter sexo. Calma, antes que comecem a julgar o ridículo da comparação, deixem-me prosseguir. Nenhuma ideia é má à partida, está cheia de potencial para crescer e evoluir. O sexo também. Nenhuma ideia sobrevive intacta ao contacto com a realidade e o mundo. No outro lado da comparação, há todo um jogo de expectativas quebradas e confronto de ideias com parceiro. Uma ideia viável ou não tende sempre a florescer do trabalho em conjunto e, da discussão e comparação; assim como está condenada a morrer infértil se ficar fechada sobre si mesmo. Assim como no sexo, se um se concentra somente no seu prazer, dificilmente se pode chamar ao acto mais do que masturbação assistida.

Podia continuar nos aspectos mais directos da comparação, mas penso que já transmiti a imagem. Contudo, tal como existem várias motivações para o sexo, também as ideias têm as suas forças de sustentação.

As melhores ideias, tal como o melhor sexo, apoia-se em amor. Elas são acariciadas, dadas especial atenção e até conseguimos fechar os olhos e ignorar algumas lacunas que não perdoaríamos noutra par… ideia. Infelizmente, tal como não se controla a espontaneidade do amor, também não se controla a das ideias. Há quem pratique e pratique, tentando conseguir tirar e dar maior prazer delas. Mas há momentos em que mesmo assim nada surge e há pressão, há que sair algo. Há quem o trabalho seja deitar-se com ideias. Há quem paga por ideias. As ideias têm pura e simplesmente que aparecer. A analogia sexual ainda mais horrível é: há que pura e simplesmente violar a musa.

Depois da fase mais leve e instantânea da ideia, ela tem que amadurecer. Algumas são espontâneas até no crescimento, outras são trabalhosas e ainda há aquelas que nem nove meses chegam para as gerar. Eventualmente a dita ideia atinge a massa crítica do nascimento.

Ficamos assim com os frutos da nossa paixão e do nosso trabalho nas mãos. E há que ver se é rosadinho e saudável ou de um enfermo cinza, decidir se continuamos a criar a ideia ou se deitamos esse bebé ao precipício. O que se decide. O que vocês decidem?

Infelizmente ou felizmente eu não consigo fazê-lo. Sei que há que ser selectivo, sei que é preciso abater as ideias mais fracas, mas nunca consigo atirá-las do metafórico precipício. São umas crianças difíceis que me custa sustentar, mas são as minhas crianças. Espero que um dia algumas delas sejam o meu legado e que sejam um bom legado.

E como são vocês? Como lidam com as vossas ideias? Nutrem-lhes carinho? Como é a relação entre vocês e a prole? Nunca se sentiram tentados a abortar, receando o trabalho acarretado por uma ideia? Como gostariam vocês que fosse a vossa ideia ideal?

1 Março, 2007 - Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Artes, Comportamentos, Humanidades, Sociedade, Tendências | | 3 Comentários

3 Comentários »

  1. Responder às tuas perguntas finais praticamente implicaria escrever um artigo de resposta. Por uma questão de pragmatismo, vou dividir a minha produção em duas: a poética e a não-poética.
    Quanto à primeira, confesso que já, repetidas vezes, apaguei versos dos quais, naturalmente, nada mais restou para a posteridade que aparas de borracha. Não tive grande remorso em fazê-lo, pois, quando o sinto, tendo a, em vez de apagar, simplesmente fazer um traço por cima: assim, se algum dia quiser reler, por curiosidade, aqueles versos menores, consegui-lo-ei. Custa-me é, por vezes, ter de escolher entre dois caminhos possíveis que um poema pode tomar e em que um inevitavelmente terá de ficar para trás: tenho uma reduzida, mas nostálgica, colecção de poemas que não foram, dos quais a versão existente é uma alternativa aos guardados nas pastas dos meus rabiscos. É um sentimento estranho, porque, incapaz de apresentar duas versões de um poema, custa-me ter de preterir uma em favor de outra.
    Quanto à produção não lírica, dificilmente aborto, de facto, alguma coisa: na pior das hipóteses, suspendo o meu trabalho, arrumo na prateleira o manuscrito para, quiçá, um dia, mais velho, sem mais projectos, a ele retornar: porém, não sou capaz de, sem compaixão, o lançar na fogueira, porqu e nunca dará em nada – no fundo, são pedaços da minha história enquanto escritor e homem.
    Quanto à ideia ideal, duvido que esteja aí o busílis da questão: por vezes, as boas ideias morrem é quando as começamos a escrever – não é o conteúdo que é podre, é a forma. A ideial ideal, para mim, teria de vir sempre aliada à forma correcta: só assim poderia surgir algo digno de algum, ainda que reduzido, valor.

    Comentário por silent_dark | 12 Março, 2007 | Responder

  2. historia e uma merda

    Comentário por duguinhu | 27 Junho, 2007 | Responder

  3. Bem, pela correcção do comentário, penso que também deve achar que português é uma merda. Segundo ponto: sobre história fala pouco…

    Comentário por Ludovico M. Alves | 28 Junho, 2007 | Responder


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