Ars Scientia

Lá porque a perfeição é aborrecida, a compreensão é um mal necessário. Onde ciência, artes e letras convergem num estranho expoente.

Escapismos

É o homem que resignado com o mundo, entrega-se ao trabalho, esquecendo os seus sonhos pelo custo de uma vida. É o mesmo homem que não se nega mergulhar numa série ou num livro que reflecte a ilusão romântica da sua carreira e percurso ideal. É o mesmo homem embalado na canção da sublimação, transmitindo nos filhos o desejo de seguir aquilo que não conseguiu, aceitando que é feliz assim.

É a rapariga indecisa, magoada num cedo desabrochar para a realidade das expectativas e desilusões, que na sua imaginação cai numa fuga para uma ilha deserta. Uma deserta ilha, mas cheia de pessoas com que se pode identificar, companheiros de naufrágio, amigos antagonistas, pessoas duvidosas com que ela se inclui, mas pessoas duvidosas que estão na transformação para algo melhor. Algo que lhe dá esperança. Que lhe dá forças. É a mesma rapariga, procurando na sua indecisa realidade pessoas que gostaria que a acompanhassem na viagem a essa ilha…

È a mulher desiludida com o aborrecimento e a falta de inovação e vitalidade da sua vida. Sedenta da chama que rotina e ausência de novos prazeres, sentiu-se obrigada a refugiar-se em romances de arlequim e fantasias de abuso e de forçada satisfação. É a mesma mulher, gastando num pequeno doce ou pessoal oferta a fortuna que pode ser mais útil animando-lhe um dia que tem sido mau, pior do que a sua doméstica miséria. É o mesmo futuro, passado na construção e pequena decomposição do ambiente que a rodeia, no pulso firme da maternidade ou emprego, uma razão de feliz compensação por todos os lapsos e falhas.

E eles são bem-vindos, e eles estão entre nós e o seu… escapismo é o nosso escapismo. Isto tudo por causa da maravilha do escapismo do vencedor do Fantasporto deste ano, El Labirinto Del Fauno… é impossível não ser apanhado na dimensão da fuga conhecida, rival ao nível de estradas de tijolo amarelo e da boa tradição daquele matemático que preferia a companhia de crianças a adultos e nas suas fugas deu à Alice maravilhas. O escapismo vive e é celebrado todos os dias.

Toda a gente fantasia. A nossa cabeça não tem de aceitar, bem longe disso está para fazer. Se recusa aceitar, ainda mais recusa em de tudo gostar. Apesar dos nossos caprichos individuais, eles cada vez importam menos. A nossa sociedade cada vez pede mais e cada vez menos dá. Euro, libra, dólar e iene podem ter altos e baixos, mas se há moeda sempre a desvalorizar, é a com que se compra a nossa felicidade pessoal, intrínseca.

Vamos admitir… parece que a felicidade se tornou obsoleta. É um sentimento comum, face a ele, quem pode resistir a quem não querer fugir? Seja a ocasional fantasia ou mais louco devaneio que nos ocorre no dia-a-dia, umas férias ou um mais arrojado “comportamento alternativo”? Bem, escapismo seja saudável. Desde que ninguém tenha uma regressão infantil, outros problemas psicológicos mais graves, ou se acabe por destruir. É uma ferramenta da nossa psique, do nosso eu e da nossa personalidade.
Nós vivemos cada dia com a esperança de a cada dia fugir. Com mais ou menos sucesso, vamos andando nessa fuga e perdendo ou ganhando algo. O mundo moderno nem sequer tenta lutar, embrenha-se no escapismo e convida todos nós a usá-lo. Ele está lá, ele chama-nos. Mergulhem nas piscinas dele, dizem eles. Seja num livro, num filme ou série, num sonho ou na letra daquela música. Vocês sabem. Daquela.

O escapismo vive.

O escapismo somos.

6 Março, 2007 - Publicado por Ludovico M. Alves | Ars Scientia, Comportamentos, Sociedade, Tendências | | 1 Comentário

1 Comentário »

  1. [em falando da ficção, literária ou não, dita escapista]
    Tolkien:
    - Quem serão os mais hostis à ideia de escapar?
    Lewis:
    - Os carcereiros.

    Aqui está uma adenda pessoal à tua reflexão, com a qual estou em absoluta sintonia: escrita clara percorrida do teu coloquialismo sóbrio, ideias ordenadas e vivas, necessárias. Deixa-me repetir as tuas últimas palavras, que me ficaram a ecoar:
    “O escapismo vive./O escapismo somos.”

    Comentário por silent_dark | 12 Março, 2007 | Responder


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